Nos artigos anteriores sobre o Estuarine Mapping, exploramos como certos elementos apresentam comportamentos recorrentes em relação ao consumo de energia e tempo dentro de um mapa de mudanças. Essas tendências comuns revelam zonas específicas no mapeamento, que, por sua vez, auxiliam na formulação de estratégias coerentes conforme os gradientes de tempo e energia. Entre as zonas abordadas anteriormente, destacam-se:
Zona Volátil – Caracteriza-se por um alto dinamismo e uma elevada probabilidade de mudança. Os elementos pertencentes a essa zona podem ser rapidamente modificados ou até mesmo desaparecer.
Zona Contrafactual – Representa aspectos que se contrapõem aos fatos concretos. Inclui elementos extremamente difíceis de alterar dentro de um determinado contexto espacial e temporal.
Neste artigo, voltaremos nossa atenção para a Zona Liminar. Mas o que significa o conceito de liminaridade e quais são suas implicações práticas ao mapear o custo de energia e tempo necessários para promover mudanças organizacionais?
O que é liminaridade no Estuarine Map?
Na antropologia, o conceito de liminaridade deriva do termo latino līmen, que significa “limiar”. Esse conceito refere-se à condição de ambiguidade ou desorientação vivenciada na fase intermediária de um rito de passagem. Durante essa etapa, indivíduos ou elementos encontram-se em um estado transitório, situados no limiar entre uma estrutura anterior de identidade, tempo ou organização social e uma nova configuração emergente dessas dimensões.
Conforme ilustrado na figura abaixo, no contexto do Estuarine Mapping, a Zona Liminar abrange itens posicionados próximos à Zona Contrafactual, mas que não são completamente imutáveis. Esses elementos representam aspectos que, a princípio, não podem ser alterados por aqueles que conduzem o mapeamento, porém, podem ser modificados por outras pessoas dentro da organização.

Isso implica que, tipicamente, os itens na Zona Liminar exigem colaboração, apoio e até mesmo patrocínio político para que certas mudanças ocorram.
Essa característica torna a Zona Liminar um espaço crucial para identificar oportunidades de ação indireta e estratégias de influência, conectando diferentes agentes e promovendo mudanças de forma mais alinhada com as disponibilidades de um sistema.
Um exemplo prático de como agir em itens liminares
Certa vez, um grupo de líderes realizava um processo de Estuarine Mapping para identificar as mudanças necessárias na estrutura organizacional, com o objetivo de tornar o modelo operativo da empresa mais colaborativo e sinérgico entre suas diferentes áreas.
Durante esse processo, diversos elementos gerenciáveis foram mapeados como passíveis de mudança, mas um, em particular, foi identificado como liminar: o processo de elaboração e aprovação do orçamento anual da companhia.
Esse item foi classificado como liminar porque sua modificação demandaria um alto consumo de tempo e energia, mas não ao ponto de ser totalmente impossível de mudar. O grupo reconheceu que o espectro de energia poderia ser significativamente reduzido caso obtivessem o aval de um vice-presidente (VP) específico dentre o grupo de VPs da companhia.
Diante disso, a primeira ação estratégica foi iniciar diálogos para engajar esse VP na necessidade de reformular o processo de orçamentação da empresa. Após algumas boas conversas e com o apoio conquistado, o grupo conseguiu desbloquear outras ações que, sem esse apoio político, poderiam ter sido inviabilizadas, permitindo a evolução do modelo operativo da companhia.
Conclusão
O Estuarine Mapping facilita a identificação de novas possibilidades de ação a partir dos elementos disponíveis em um sistema organizacional. Como esses sistemas são dinâmicos, a distribuição de custos em termos de energia e tempo pode variar frequentemente conforme o contexto. Dessa forma, elementos liminares podem representar oportunidades estratégicas para impulsionar transformações organizacionais relevantes.
De modo geral, essa abordagem permite que a organização compreenda melhor seu ponto de partida e inicie processos de mudança com um senso de direção mais claro, realista e alinhado às suas necessidades.
Foto de Sid Balachandran na Unsplash.